NANCY BETTS

O império do Poder

O início foi um conto escrito pelo próprio artista. Depois, o caráter que permeia as exposições de Victor Lema Riqué dominou o cenário: a diversidade dos sistemas de representação. A partir da matriz verbal, o artista dá visibilidade ao corpo do trabalho nas linguagens visual e sonora e no meio digital. Intertextos que, apesar de terem seus referentes autônomos, funcionam como códigos em co-presença que dialogam e se complementam na totalidade da exposição.

Na figuratividade destes modos de expressão está implícita uma ideologia, a crença de que hoje tudo é possível numa sociedade capitalista movida pela propaganda: enriquecer, ter acesso, status. O exemplo é a história de Roberto Imbríaco e seu produto Regular Coffee. O título, na sua simplicidade e musicalidade, já é jogo estratégico e o logo é um sinal extremamente eficiente em potencializar a fixação do produto na memória do consumidor.

Nas pinturas, a divisão entre o "mundo real" e o "mundo da ilusão" ganha significado por meio da manipulação da forma, da cor e do ritmo. Revela-se um conjunto de traços formais que instaura o tom que identifica a maneira do artista habitar o espaço. As cidades globalizadas parecem ter a mesma face, sejam antigas fábricas ou modernos arranha-céus, todas são construídas naquilo que se convencionou chamar de bad painting, a tosca linha e a pincelada escura e borrada são a estética propositalmente escolhida para produzir uma forma cujo efeito de sentido é de que a vida é o âmbito da incerteza, dos deslocamentos e da solidão. Nas faixas de propaganda, a expressão se constitui na clareza e no brilho do dourado e na limpeza das letras com hard edge. A palavra e a imagem, neste campo, são ancoragens de caráter analógico – pretendem ser cópia de uma "certa realidade". Aqui, é o lugar da sedução, do glamour e da certeza, a garantia de poder-ter ou poder-ser.

Se a pintura valoriza o espaço e a permanência dos objetos aí fixados, a linguagem do vídeo lida com a instabilidade do tempo e da imagem. Nos vídeos, o conto é redesenhado e a narrativa ganha um tom irônico. A fala irônica pode ser apreendida em mais de um sentido, devido a uma subversão na coerência de valores estabelecidos pela introdução, na linguagem ou no gestual, de um elemento contraditório. Sem rechaçar acintosamente o que é dito, provoca uma ambigüidade na interpretação da história. Os vídeos fazem uma ficcionalização do que os programas de TV apresentam como real, simulando a verdade. A verdade é assim. Qual verdade? A das palavras ou das ações? Que leitura deve prevalecer: o conselho ou o comportamento, a cultura pasteurizada de Kelly Miller ou sua "falta de memória"? Os mundos, na arte, são realidades construídas e o artista deliberadamente aponta as fronteiras entre o real e a ilusão - os complexos modos de presença no mundo contemporâneo. O paradoxo é que, na vida, o conto é realidade.

Nancy Betts março 2002
Texto dos catálogos das exposições da Galeria Valu Oria e Unicid