99 % DE UMIDADE E ALGUMAS MOLÉSTIAS LOMBARES

A umidade relativa do ar segundo o Instituto de Metereologia chega hoje a 99%, assim diz o rádio. Desde o ano passado vêm alertando que este ano seria extremamente úmido, que haveria uma umidade sem precedentes. O Instituto cada vez acerta mais, ou erra cada vez menos, e essa precisão acaba anulando o grande prazer da variável do tempo.

Coloquei o aquecedor bem perto de mim, mas não adianta. O desconforto é tão grande que quase me acostumei. Tento achar e criar soluções. Por exemplo: trouxe a luminária que estava em cima do criado-mudo para a mesa sobre a qual estou escrevendo. Isso me permite, além de ter a luz necessária para escrever, que o calor gerado pela lâmpada sirva para aquecer o papel em que escrevo, do contrário, o papel adquire tanta umidade que quando a caneta passa por cima, ele se desfaz. Trazer a luz para perto dá resultados, mas alguns inconvenientes também. Os ossos da parte de cima da minha mão direita não param de sofrer queimaduras. O movimento que faço ao escrever me leva com frequência a bater na lâmpada e assim sofrer pequenas queimaduras que com a repetição causam bolhas. Passei um creme, mas o calor da lâmpada o derrete e mancha o papel. De todas as formas continuo escrevendo.

Tenho medo de ligar a TV, talvez a umidade tenha prejudicado o tubo de imagem. Um curto-circuito nestas condições seria um verdadeiro desastre. Mas para que ligar a TV? Para ouvir a mesma coisa que diz o rádio? Como os pássaros estarão enfrentando esta epidemia de umidade? Como as pessoas estarão se protegendo? Algumas devem estar melhor e outras pior. Eu devo estar num grupo intermediário e talvez melhor que os pássaros lá fora, mas, pensando bem, talvez seja o contrário. Chego até a janela e limpo com um pano velho, o vidro embaçado. A esta hora num dia de clima normal, a rua estaria cheia de pessoas, mas hoje só consigo ver o dono da floricultura da esquina. Ele está fechando as portas de ferro da loja. Essas portas, quando são abertas todas as manhãs ou fechadas todos os fins de tarde fazem um barulho ensurdecedor, mas hoje estão completamente silenciosas. Como não desejo mais ouvir notícias ruins, decido desligar o rádio, mas no momento em que ia me levantar da cadeira, a panturrilha da minha perna esquerda toca no aquecedor. Se não fosse pela calça, a queimadura seria bem pior do que aquelas que tenho na parte superior da minha mão direita.

Escuto um barulho. De onde vem? Descubro que através de um pequeno buraco na parede brota um fio de água. O fio faz uma curva e cai atrás de mim. Com a ajuda de uns plásticos e durex, improviso uma espécie de aqueduto doméstico. Consigo assim, alterar o curso dessa água de tom esverdeado. Para isso devo abrir uns milímetros a janela e espero que essa fresta mínima não faça entrar mais umidade. Vou aumentar um ponto o nível do aquecedor, mas só um ponto, porque se ele queimar, o desespero vai me dobrar.

Estranho é que até agora não dei um único espirro. Não tenho nem sede e nem fome.

Devo confessar que não tenho mais prazer em dormir. Durmo por uma obrigação física. Entrar toda noite na cama é um sacrifício. Os lençóis úmidos me abraçam e me desgastam moralmente de tal forma que perco o sono. Esta vigília forçada causa em mim estas profundas olheiras de aparência dramática, que marcam meu rosto nos últimos dias. Tentei várias fórmulas para acabar com essa sensação de abraço desgastante, mas todas sem sucesso. A última foi pegar alguns pratos de cerâmica, colocá-los no forno para esquentar e antes de me deitar deixá-los entre os lençóis. No começo foi um sucesso, mas durou pouco tempo. Os pratos se esfriavam rapidamente. Fiz a mesma coisa com umas escumadeiras de alumínio, mas estas queimavam os lençóis.

Lembro agora, que um dia, enquanto aguardava o elevador, ouvi através da porta do apartamento vizinho, uma voz masculina falar sobre o tempo. Com certeza era a voz do próprio vizinho falando ao telefone. Perguntei-me com quem estaria falando e achei que provavelmente estaria passando informações meteorológicas para alguma emissora de rádio…Será que o vizinho é um profissional do tempo? Um meteorologista?

Levanto-me da cadeira ou não? Bato na porta do vizinho ou não? A minha curiosidade merece uma resposta exclusiva? Por que? Se em todos estes anos apenas nos demos bom dia inclinando nossos rostos, porque agora deveríamos falar? Será que o Sr. tem uma previsão sobre quanto tempo ainda esta umidade nos castigará? Talvez possa ligar para ele e fingir que sou de alguma emissora pedindo detalhes sobre o tempo. Boa idéia, mas para isso preciso saber o número de seu telefone. Vejo que as três listas telefônicas tem a mesma cor. Onde está a de páginas amarelas? A resposta vem no ato: por causa da umidade a cor amarela sumiu. Com certa dificuldade, separo as páginas da lista telefônica de ruas colocando-as bem próximo da luminária. As bolhas na parte superior da minha mão direita me incomodam cada vez mais. Com o calor o papel se ondula e solta um cheiro que chega a ser agradável. A ondulação do papel dificulta a leitura causando uma tontura passageira. Finalmente acho nossa rua e nosso número. Procuro os sobrenomes, qual sera o do vizinho? O prédio tem três andares com 6 apartamentos ao todo. Está por ordem alfabética, eu sou o último e Vanovic o primeiro. Sim, talvez seja Vanovic seu sobrenome, o vizinho tem um aspecto (algo) eslavo. Disco o número e quando levo o telefone ao ouvido percebo que não tem linha… a umidade também afetou as linhas telefônicas?

A esta altura devo confessar que já estou ficando sem forças e um profundo cansaço toma conta de mim. Os meus olhos se fecham por intervalos e a minha mão faz um enorme esforço para continuar escrevendo. Escuto um som seco atrás de mim. Giro lentamente meu corpo, e percebo que um livro da biblioteca caiu no chão. Uma luz opaca surge timidamente do espaço que o livro ocupava. Aos poucos outros livros começam a cair e mais fachos de luz aparecem. Por fim, o último parece ter caído. Na biblioteca se formou um retângulo de luz, sempre opaca, filtrada e densa. Uma inédita janela de luz agora faz parte de meu habitat. Começo a sentir um repentino conforto que me permite ter forças suficientes para me levantar da cadeira e chegar até a janela. Ela não tem vidro nem grade e projeta um agradável calor que inunda toda a sala. Olho para fora e vejo a cidade em plena atividade. Uma enorme trepadeira cobre as paredes externas da fachada da floricultura. Deslumbrantes pássaros voam em círculos. Sinto agora meu corpo leve como uma pena e se tentasse, conseguiria voar. O telefone toca e o volume do rádio fica mais alto. Inclino-me para tirar a tomada do aquecedor e vejo os livros caídos no chão, um ao lado do outro. Para minha surpresa, os títulos dos livros me são totalmente desconhecidos e jamais pensei que fizessem parte de minha biblioteca:

“O HOMEM QUE ESPERAVA A CADEIRA ESFRIAR”, ‘RING THE BELL AND DON’T WALK ON THE GRASS”, WHY BE ABSTRACT IF WE ARE SO FIGURATIVE?”, “DE QUANTOS NÚMEROS E ALGUMAS LETRAS PRECISAMOS PARA FUNCIONAR?” “DISSE BOM DIA E O VIZINHO NÃO RESPONDEU” e “KEEP OUT - PRIVATE PROPERTY”…

Também o nome da editora me é desconhecido:

EDITORA MOLÉSTIAS LOMBARES

Por Victor Lema Riqué
2005