Juliana Monachesi, 2013

Um estado de simples abstração?

Preto é a cor da espacialidade. Invenção de Manet, que perturbou as sensibilidades no final do século 19 com seu Almoço na Relva. O preto não era usado ali como símbolo de ausência nem como contraste para dar visibilidade maior às outras cores, mas para estabelecer distâncias. Um valor espacial, afirmou Foucault acerca da mancha negra que mistura as vestes masculinas à vegetação ao fundo no quadro do impressionista francês. Isso sem contar a transgressão das regras básicas de perspectiva e o menor foco de importância do tema. O vento predominante passa a ser, a partir de Manet (e isso na opinião tanto de Foucault quanto na de Greenberg), a objetualidade do quadro e a modernidade do pensamento estético, rumo à abstração.

Apesar da carga metafórica de suas obras (sejam ela visuais ou literárias), Victor Lema Riqué provavelmente trata mesmo de meteorologia quando menciona a direção dos ventos. Porém, é quase irresistível devolver para a obra o mesmo jogo metafórico que ela nos apresenta, assim como muitos críticos se sentem tentados a esboçar textos literários diante da obra mais narrativa do artista. Acontece apenas que VLR é tão bom escritor quanto é inquietante como artista, o que torna um tanto temerário desafiá-lo em seu próprio jogo. O que fazer, se, afinal, vem a ser de fato a abstração o que a nova série de desenhos em carvão aponta, predominantemente?

Aponta também em outras direções. Uma arquitetura ficcional se insinua nessas obras, inspirada na tradição dos projetos de referências náuticas no Uruguai das décadas de 1930 e 1940, como se vê, por exemplo, no edifício do Yacht Club, em Porto de Mergulho, Montevidéu, ou no prédio El Mástil, também na capital. As formas urbanas arredondadas evocam imediatamente uma era de ouro (aqui e lá), identificada com a consolidação da modernidade e do Estado de bem-estar social. Os desenhos também tratam dos regimes de visibilidade, conferindo ênfase ao menos olhado, ao periférico ou secundário, embaralhando para esse fim a lógica da perspectiva linear clássica.

Uma combinação destas três “pistas” – a abstração, a insinuação arquitetônica e a espacialidade do olhar – é o mais indicado ao visitar a exposição A Direção do Vento Predominante 2, porque nenhuma é suficiente sem as demais. Estamos diante de um trabalho complexo, que perturba as sensibilidades deste início de século 21. Tudo o que se esconde nas zonas de sombra destes desenhos que levam o título de uma sequência cinematográfica pode vir a se revelar (ou não) na série épica em que VLR está trabalhando no momento, da qual apresenta um preview na individual na Zip’Up. Ambientada no Uruguai da primeira metade do século 19, a epopeia gira em torno Giuseppe Garibaldi, e parece conferir nova direção a um outro sistema de visibilidade.

Juliana Monachesi

Maio de 2013