ALÉM DO ÂNGULO

Mais uma vez cheguei atrasado. A ótica fechou e não conseguí retirar meus novos óculos. Não gostaria de voltar para minha casa e passar mais uma noite sem poder ler. Prefiro então aproveitar a brisa animadora e andar descontraído pela avenida principal. Enquanto aguardo o sinal verde de um semáforo, observo um magnífico prédio que finaliza numa cúpula maravilhosa. Sempre gostei muito dos traços arquitetônicos das cúpulas mas atualmente me interesso mais pelo interior delas. Me intriga saber como são por dentro, me pergunto se alguém vive nelas, se tem infiltrações, plantas, pombas, insetos, ou se simplemente o interior é oco. Continuo andando, e observando tanta gente indo e vindo, penso que a cabeça de cada pessoa é a cúpula de cada corpo.

Tempo não me falta e como meu problema não é ter dificuldade para ver de longe e sim de perto decido entrar num cinema. Apresentam um ciclo especial de películas musicais. O filme de hoje é Follow the Fleet, de 1936, com Ginger Rogers e Fred Astaire. A projeção é enorme e depois de um tempo curiosamente observo que não estou concentrado na ação dos bailarinos principais. Noto que fixo minha atenção só nos figurantes que compõem cada cena. Confuso me pergunto que seria de cada cena sem a prescença deles. Tenho absoluta consciência de estar dentro de um particular desvio visual e interpretativo. Tal vez por causa de um estado de simples abstração? Ou simplemente pelo tamanho gigante da projeção?

Esta experiência fará que a partir de hoje começe a me interessar por tudo aquilo que serve para complementar, ou seja, que a partir de hoje passe a afirmar que o secundário também interessa, que a partir de hoje sea relevante para mim o valor do anônimo.

Leve e satisfeito saio do cinema. Ainda é cedo e enseguida entro em outro cinema. Não vai ser a primeira vez nem a última que assista dois filmes seguidos.

Ao contrário do anterior, este filme é lento e sombrío. Por momentos tenho vontade de sair da sala mas fico e continuo assistindo. O protagonista principal interpreta o papel de um jovem ambicioso que viaja vendendo seguros. Na última cena, dirige imprudente um carro a toda velocidade e antes de uma bifurcação, o carro perde velocidade até parar por completo. Desce para examinar o motor mas como não entende nada de mecânica vai até o cofre para retirar o manual de instruções. A letra é minúscula, impossível de ler e lamenta profundamente não ter um par de ôculos. Sai do carro decidido a buscar ou esperar ajuda. O lugar é bastante isolado e ja começa a oscurecer, não tem nada ao redor, apenas um velho outdoor, uma placa de tránsito e dois caminhos secundários a escolher. O outdoor está bem gasto mas ainda da para ver a imagem de uma bela mulher de olhos azuis e sorriso espetacular. Ao lado da foto um texto diz: “Faça como eu, troque suas lentes por nosso colírio! ”. A placa de tránsito mostra duas zetas em forma de curva, uma para a direita e a outra para a izquerda... O jovem protagonista desafiando os sinais e ignorando os caminhos secundários que a placa sugere, escolhe andar pelo meio, justamente um lugar onde só tem pedras, lama e pasto... Mas é melhor que pare por aqui, não contarei o fim, caso alguém queira ver todo o filme.

Saio do cinema e aflito penso na ôtica e na retirada de meus ôculos. Amanhã sem falta chegarei antes que feche, ou melhor, chegarei antes que abra.

Ja é quase de noite e continuo andando pela avenida. Perto da estação de metrô onde devo entrar, vejo um senhor cego e um acompanhante. Estão embaixo de um dos principais prédios da cidade. Neste caso, não tem uma linda cúpula que o complemente, mas sim tem um grande vão que chama a atenção. Paro por uns instantes e ouço ao acompanhante do cego fazer o seguinte comentário, enquanto o segura pelo braço: “Bom, olha, para que você tenha uma idéia, o espaço que tem entre uma ponta e a outra deve de ter uns setenta metros de cumprimento, e bem na nossa frente, tem um grande terraço do qual se pode observar outra avenida ...” O senhor cego, muito atento, faz um gesto de admiração, girando a cabeça em várias direções.

Agora sim estou a apenas um par de metros da estação que me coresponde, mas de manera insólita não entro... caminho mais um pouco e surpresso percebo que cheguei a outra avenida... não e mais a mêsma... não é mais a principal.

Inesperadamente me encontro como se estivesse... Alêm do Ángulo ... me sinto confuso, algo alterado e nada está claro para mim...

É possível, é provável, talvez tenha me deixado levar, pela Direção do Vento Predominante...

Por Victor Lema Riqué
2010